sábado, 17 de novembro de 2012

Poema do Silêncio "Cortado"

Sim, foi por mim que gritei quando compreendi. 
- Que ergui mais alto o meu grito 
E pedi mais infinito! 

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas, 
Que, sem rumo, 
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo... 

O que buscava 
Era, como qualquer, ter o que desejava. 
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo, 
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo. 

Sair deste meu ser formal e condenado, 
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano! 

Senhor meu Deus! 
Nu a teus pés, abro o meu seio 
Procurei fugir de mim, 
Mas sei que sou meu exclusivo fim. 

Sofro, assim, pelo que sou, 
Sofro por este chão que aos pés se me pegou, 
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir! 

Senhor meu Deus! 
Senhor dá-me o poder de estar calado, 

Se os gestos e as palavras que sonhei, 
Nunca os usei nem usarei, 
Se nada do que levo a efeito vale, 
Que eu me não mova! que eu não fale! 

Ah! também sei que, trabalhando só por mim, 
Lutava um homem pela humanidade. 

José Régio, in 'As Encruzilhadas de Deus'

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