segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Dor


A mestria não faz ninguém acordar do sono mais profundo, nem faz gerar amor onde não o é.
E o meu coração estala todo ele envidraçado talvez por seguir em frente mesmo na escolha errada.
"Fazer evolução onde existe involução" - canta-me ela vezes sem conta...
A cada dia que passa, dou-te mais razão minha irmã.
Este será possivelmente o tempo-maior, o da procura da faísca que nos reacende e mantem vivos para além da nossa própria dor.
Doí-me o sonho da verdade.
Doí-me a ilusão por inteiro.
E basta-me um instante, para tudo voltar ao pó novamente...
Minha irmã, segura minha mão...
Segura minha mão com o teu corpo e presença de espirito,
Para que não me torne igual ao chumbo que mata e gela...
Minha irmã, segura minha mão...
Para que a luz não queime e mate o que alguns chamam de "amor".

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Para quem vai rumo ao Sul


Norte, Sul, Este, Oeste
Faroleiro Mestre
Guia de Nortadas
Que do Gelo fez o Forte
Ergue-se da Morte
E segue o Sinal de Embargue 
Sem embriaguez
Sem a angústia
Com exatidão de quem sabe andar sem os pés no chão    
Volta sempre meu irmão

Gisela João - Vieste do Fim do Mundo

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mãe


Mãe faz com que os teus olhos vejam os meus e me matem os verdadeiros enganos,
Cura a verdade do meu coração, aquela que quero fazer de conta de que não sinto,
Mãe prende-me a mão antes que o queime por saber não ser verdade...
Que o meu coração seja sempre mais alto, mais além e melhor do que posso ser.


Não Vale a Pena - Maria Rita

domingo, 8 de dezembro de 2013

Da Chuva de Mariza "que ouve e cala o meu segredo à cidade..."



Um dia virá

em que a minha porta

permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.

"Um dia virá" - Rosa Lobato de Faria, in A Noite Inteira Já Não Chega Poesia

domingo, 1 de dezembro de 2013

"E ela acreditava em anjos, e porque acreditava eles existem"


Não, não sou católica e para mim Deus não mora em casas de tijolos, mora nos corações.

"Acorda! É tempo!"

"Persistência da Memória" (1931) - Salvador Dalí

Surge et ambula!    

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! 
São canções...Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate.

          " A um Poeta" - Antero de Quental, Sonetos

Best Off



Não existe letra no mundo como esta, jamais existirá.

sábado, 30 de novembro de 2013

Mater


Obrigada Mater, pela Visão.
Há muito tempo que o meu coração sangra.
Os Homens, Mater e As mulheres, Mater já não podem mentir.
Há muito tempo que o meu pensamento redobra como o teu,
Das horas em que sentias que se tudo fosse em pensamento não haveria mentira no mundo e tudo seria mais justo, melhor e o Amor seria a lei e o percurso natural das coisas.
Tanta dor por perceber que muitas vezes o toque não é suficiente.
Que bem-me-quer
Que mal-me-quis 
E eu só te quero ver feliz.
Há muito tempo.
Agape Mater

sábado, 23 de novembro de 2013

Ó Constança: "É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir!"

"Forbidden Paradise" by Tenebra

«Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.»


A distância entre as duas margens não era grande e João Sem medo morria de fome. Não hesitou, pois. Despiu-se e com a trouxa de roupa à cabeça penetrou no líquido esverdeado de limos, crente de que alcançaria facilmente a nado o laranjal apetecido. Mas aconteceu então este fenómeno incrível: à medida que o nadador se aproximava da outra margem, a água aumentava de volume e a lagoa dilatava-se. Por mais esforços que despendesse para fincar as mãos na orla do lago, só encontrava água, água unicamente. A terra afastava-se.


- Bonito! Estou dentro dum lago elástico – descobriu João Sem Medo, esbaforido. Mas fiel ao seu sistema de persistência enérgica não renunciava ao combate. As margens desviavam-se, mas o rapaz nadava, nadava sempre, com confiança plena nos seus braços, na força de vontade e no desejo de vencer.



- Eh!, alma do diabo, sofre! – instigou-o por fim uma onda a deitar os bofes de espuma pela boca fora. Um peixe insurgiu-se com voz mole:



- Assim não vale! Vê se acabas com isso. Eu e os meus camaradas peixes queremos dormir em sossego. Vamos, chora! Uma gaivota baixava de vez em quando para lhe insinuar, baixinho:

-Então? Torna-te infeliz. Soluça. Berra. Chora. Lembra-te que seguiste o Caminho da Infelicidade. Não faças essa cara de quem ganhou a sorte grande. Por último, uma coruja de mitra pequenina na cabeça e venda nos olhos – para voar de dia e de noite em perpétua escuridão – segredou-lhe ao ouvido:

- Queres laranjinhas? Ouve a minha sugestão: representa a comédia da dor. Finge que sofres muito, sê hipócrita. Mente. Pede a esmolinha de uma laranja por amor de Deus. Vá! Não sejas tolo. Chora.

Como única resposta, João Sem Medo repeliu a coruja, fez das tripas coração e desatou a cantar à sobreposse. Então, ao som do seu canto, por fora tão vibrante e viril, a fúria das águas amainou. O rugir das ondas amorteceu lentamente. Um murmúrio de desistência soprou pela superfície do lago. E João Sem Medo, com algumas braçadas vigorosas e seguras, logrou pôr o pé em terra perto do laranjal carregado de pomos de ouro.

Claro, correu logo como um doido para a árvore mais próxima, sôfrego de engolir meia dúzia de laranjas. Mas, num lance espectacular, os frutos diminuíram rapidamente de volume até atingirem o tamanho de berlindes e– zás! – com um estoiro despedaçaram-se no ar. Humilhado, e a contar com uma nova surpresa desagradável, abeirou-se de outra laranjeira. Desta vez, porém, as laranjas transformaram-se em cabeças de bonecas doiradas e deitaram-lhe a língua de fora.

- A partida anterior teve mais graça! – observou João Sem Medo. E dirigiu-se para uma tangerineira com a vaga esperança de apanhar uma tangerina desatenta. Isso sim. Mal o avistaram, os frutos caíram dos ramos como bolas de borracha e espalharam-se na paisagem. Então, numa tentativa suprema, João Sem Medo acercou-se de outra árvore, sorrateiramente, em bicos de pés. Tudo inútil. Como se estivessem combinadas, as laranjas e as tangerinas do pomar desprenderam-se dos troncos, abriram pequeninas asas azuis e começaram a subir serenamente no céu.

Apesar da fome, João Sem Medo, com os olhos fixos no espectáculo maravilhoso das bolas de ouro a voarem, não pôde reprimir este clamor de entusiasmo, braços erguidos para o ar:

-Parabéns, Mago. Parabéns e obrigado por este instante, o mais belo e bem vivido da minha vida. Obrigado. Mas agora ouve o que te peço: desiste de me perseguir. Convence-te de que, para mim, a felicidade consiste em resistir com teimosia a todas as infelicidades. E vai maçar outro. Ouviste? Vai maçar outro.»

José Gomes Ferreira in Aventuras de João Sem Medo

Bendita Musica - Dulce Pontes


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Home


please just take me home

Mostra-me, peço-te.


Ah, a imagem não é exata, eu sei...mas não encontro nada mais semelhante a esses teus bonecos de madeira que tens simetricamente alinhados numa fila de quem parece que vai partir para a farra. Gosto deles, fazem-me lembrar aqueles cabeçudos das folias mas em ponto pequeno, se bem que as pernas até que são altas e fininhas... Gosto das cores, gosto muito, só não entendo é se são sacolas o que alguns trazem ao peito.
Mas olha, nada disto importa, foi só um reparo esguio...
O que importa é agradecer.
 Obrigada pelas conversas em alma e de alma, nessa dimensão onde poucos se sabem encontrar, sentar e falar. 
Obrigada por esse abraço feito em fanicos de perdão e muito amor até.
Quero-te dizer que o lugar dos sonhos será sempre moradia de esperas, desabafos, o descompartilhar e descompartimentar de corações. E que ali são rendidos os medos e os cansaços, os risos até.
Sinto a tua falta, sinto sempre.
E perdoa se tudo isto é ilusão.
Mas em humildade de coração, feita também em tábuas de madeira como essa casa árvore - onde todos brincam - faz-me pelo menos uma vez a vontade e mostra-me que não me sentei só, que estavas lá comigo e que tudo isto é verdade.
Mostra-me, peço-te.

Elis Regina - Aos Nossos Filhos


"Perdoem por tantos perigos,
Perdoem a falta de abrigo,
Os dias eram assim..."

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Muita chuva nessa hora


 Sempre a chuva, sempre as pessoas a caírem como gotas pesadas dos céus.
Sempre as histórias, as fugas impensadas, os maestros de uma vida a morrer.
Sempre pergunto porque foges em mar, tu que nasceste rodeada de água?
Não vês que o santo vocabulário e o coração são os mesmos?
De que adianta fujir à sorte que só demora no tempo a chegar?
Guia-te Porto

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Empanamentos de alma


Eu digo-lhe que tenho o coração empanado e que nem consigo escrever...ela diz-me que tenho o coração cheio de pão e sementes...eu digo-lhe que já não tenho terra para tantos sentimentos... ela diz-me que posso plantar lá o que eu quiser...eu digo-lhe que não existe ninguém para tratar...ela diz-me que é preciso água para fazer crescer...eu digo-lhe que não tenho a água que faz sonhar...ela diz-me que vem com o tempo, nem que tenha de esperar...eu digo-lhe que já não tenho sementes...ela diz-me que as sementes são sonhos e que às vezes são vontades escondidas...eu digo-lhe que matei as vontades, que o horizonte esta vazio...ela diz-me que vejo o céu e que se vejo o céu também vejo o mar e se vejo o céu e o mar também vejo o sol, por isso também vejo o horizonte...e eu? eu lembro-me de Pessoa e calo-me...mas a conversa sempre continua...    

Eu Não Sei Quem Te Perdeu

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Que sufocooooo!

Anda, Vem


Mãe, anda, vem...
E senta-te aqui ao meu lado e explica-me as pessoas e os seus sentimentos que eu não consigo entender.
Mãe, anda, vem...
E explica-me como é que é possível um coração humano sentir tanta coisa que o transcende a alturas e funduras de alma que se pensavam ser impossíveis.
Oh Mãe, anda, vem...
Que me sinto tão pequenina cá dentro.
Minha Mãe,
Minha Mãe de Alma.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Zeca Afonso - Canção de Embalar

Por todo o teu amor, que é mastro Maior, dificilmente poderia esconder a gratidão por te ter neste caminho. E é sempre uma maravilha ver-te chegar, mesmo que de longe, de mãos santas ao colo de tanto Amor a libertar. Esperar-te é saber ser o Mia que me ofereceste em que "Há coisas que se podem fazer pela metade, mas enfrentar o mar pede a nossa alma toda inteira."
Aqui fica o Zeca que tanto amas e que sempre te acompanha, com a Canção de Embalar - mapa mundo das estrelas pequeninas a clamar pela luz das demais.
Agape!


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Quando o hoje é para sempre...


Hoje me lembrei que somos um sopro, um pequeno sopro de Deus. 
E que nossa vida cabe em cada instante. 
Ela mora no agora. 
Amanhã ninguém sabe. 
Ninguém nunca vai saber.

Virgínia Mello

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Não-enquadramento


Eu que não aprendo,
Eternamente sentada na primeira classe deste Mundo,
Mas que posso fazer ?
Se nele não me enquadra o corpo...

domingo, 6 de outubro de 2013

domingo, 29 de setembro de 2013

Ai Deus, Ai Deus...


E era tão grande o cansaço que adormeceu sob o céu caiado a sonhos.
Este era o seu eterno cansaço, o dos sonhadores.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Tempo Sal


"O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse.
- Qual é o gosto? - perguntou o Mestre.
- Ruim. - disse o jovem sem pensar duas vezes.
O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse junto com ele ao lago. Os dois caminharam em silêncio, e quando chegaram lá o mestre mandou que o jovem jogasse o sal no lago. O jovem então fez como o mestre disse.
Logo após o velho disse:
- Beba um pouco dessa água.
O jovem assim o fez e enquanto a água escorria do queixo do jovem o Mestre perguntou:
- Qual é o gosto?
- Bom! - o jovem disse sem pestanejar.
- Você sente o gosto do sal? - perguntou o Mestre.
- Não. - disse o jovem.
O Mestre então sentou ao lado do jovem, pegou em suas mãos e disse:
- A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende de onde a colocamos. Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido de tudo o que está a sua volta. É dar mais valor ao que você tem em detrimento ao que ao que você perdeu. Em outras palavras: É deixar de ser copo, para tornar-se um Lago."


terça-feira, 24 de setembro de 2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A arte de ser Amigo


"E amigo é isso: aquele que a presença conforta sem precisar de muito gesto ou dramatização."

Martha Medeiros

sábado, 21 de setembro de 2013

Por ti


Contra quem cerraste tu os punhos?
Acaso alguém se insurgiu contra ti?
 E os céus, por acaso desabaram?
Agora todas as estrelas choram.
E nenhuma é por ti.

sábado, 7 de setembro de 2013

Barco da Saudade



Neste barco da saudade,
Cada onda é sentimento,
Réstias de saudade e lamento,
Que me ficaram neste olhar.

Espaços onda,
Espaços tempo,
Naufrágio de em Si,
Só estar.

Vem meu amor,
Quero-te banhar,
Nas águas deste meu mar.

Calmia de tempestade,
Vontade de te amar.   

(2009)

domingo, 1 de setembro de 2013

El Vendedor de Humo

Da Solidão: cuidado!


Laugh, and the world laughs with you;
    Weep, and you weep alone;
For the sad old earth must borrow its mirth,
    But has trouble enough of its own.
Sing, and the hills will answer;
    Sigh, it is lost on the air;
The echoes bound to a joyful sound,
    But shrink from voicing care.

Rejoice, and men will seek you;
    Grieve, and they turn and go;
They want full measure of all your pleasure,
    But they do not need your woe.
Be glad, and your friends are many;
    Be sad, and you lose them all,—
There are none to decline your nectared wine,
    But alone you must drink life’s gall.

Feast, and your halls are crowded;
    Fast, and the world goes by.
Succeed and give, and it helps you live,
    But no man can help you die.
There is room in the halls of pleasure
    For a large and lordly train,
But one by one we must all file on
    Through the narrow aisles of pain.

"Solitude" - Ella Wheeler Wilcox

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Quem me dera...


Quem me dera encontrar o verso puro, 
O verso altivo e forte, estranho e duro, 
Que dissesse a chorar isto que sinto!

Florbela Espanca

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Constança e a Fonte dos Desejos


O antigo Porto continha inúmeros textos que com o tempo se perderam, no entanto, um desses textos permaneceu na minha memória até ao dia de hoje...
Não sei se foi por mais tarde ter conhecido a Constança-criança, mas o apelo para o recriar permaneceu a acompanhar-me muito subtilmente, pelo que avanço com a história de uma menina tão doce como o seu rebuçado...

Era uma vez uma menina muito pequenina que brincava alegre e efusiva pelas calçadas da rua - de seu nome Constança. Constança, a criança era uma autêntica força da natureza, dotada de uma personalidade fortíssima. Rara era a coisa que ela não conseguia - nem que fosse por pura teimosia - Constança lutava!
Mas, havia algo que a menina pedia e pedia e não conseguia...até que um dia, cansada e muito zangada por não conseguir, atirou-se literalmente para o chão a espernear e a chorar convulsivamente...
Nisto, parou de soluçar, e de um pulo só, sentou-se e ficou muito calada em frente da fonte...
Constança observava agora séria, as pessoas que por ali passavam...
Reparava que as pessoas estranhamente se chegavam à fonte, cochichavam, outros em puro pensamento falavam e depois atiravam uma moeda para a água!
E era ver a cara de espanto de Constança...
Levantou-se, endireitou o vestidito branco e lá foi ela ter com uma senhora que estava junto da fonte. Quando chegou até ela, puxou-lhe a saia, de forma que a senhora olhou surpreendida para aqueles grandes olhos brilhantes e perguntou:
- Que queres minha menina?
- Senhora, porque falam as pessoas com a fonte e deitam-lhe moedas?
- Minha querida, esta é uma fonte mágica!!! Tu pedes um desejo e mandas uma moedinha à fonte e o teu desejo realiza-se!
- Ahhhh! - Suspirou Constança com o ar mais admirado deste mundo e, agradecendo saiu a correr disparada.
Sozinha, Constança pensou:
- É isso! É Isso! Vou pedir à fonte para que o meu desejo se realize com toda a força do mundo e vou dar-lhe o meu rebuçado mais doce de todos!
Dirigiu-se então à fonte e assim fez, pediu o desejo e atirou o rebuçado mais doce...
Esperou toda a tarde, esperou mais um dia e outro e outro e outro, mas nada!
Constança zangada foi então junto da fonte e a chorar de tão magoada que estava, deu-lhe um pontapé e disse:
- Afinal tu não és uma fonte mágica! Tu não és uma fonte de verdade! Não realizaste o meu desejo quando eu dei-te tudo quanto tinha...
Sentou-se, soluçando continuadamente...e quando menos esperava, ouviu o seguinte:
- Minha querida Constança, nem sempre aquilo que pedimos é aquilo que verdadeiramente nos faz falta!
Mas afinal, aquela fonte falava!
A menina de tão assustada que estava só dizia:
- Mas... mas ...mas... afinal tu és mágica, tu falas!
Contudo, a fonte permaneceu calada...
Anos mais tarde, Constança entendeu a mensagem da fonte. Então, retornou já crescida, para lhe agradecer, com o seu sorriso mais doce!  

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Pulsar

"Running from the World" by Lady-Jen

Vi-a pulsar o Luar,
E ia desprendida de todo o mundo,
Solta e leve, tão leve a voar...
E tinha conchas do mar no seu cabelo,
E tinha o cheiro do mar na sua pele escura,
Solta e leve, tão leve a voar,
Beleza pura do ar.

Vi-a pulsar o Sol,
E ia desprendida num raio solar,
Pura, tão pura, a voar...
E tinha brincos de princesa nas suas orelhas,
E tinha o cheiro da terra na sua pele resplandescente,
Solta e leve, tão leve para ficar,
Beleza pura da terra e do mar,
A voar, a voar...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Fio


Fio de prumo, 
Fio audaz,
Fio desvio,
Num tanto faz,
Fio de conta,
Fio capataz,
Fio barulho,
Fio delírio,
Fio cortina,
Fio, como se faz?
Tecendo meu bom rapaz!

(2009)  

sábado, 24 de agosto de 2013

Cuore


Pensava em escrever-te, mas depois entendi que já nada te faz falta. Então calei tudo o quanto sou e fiquei apenas a maravilhar-te como o sol que nasce todas as manhãs em puro silêncio. Pensei que o caminho até aqui foi de facto muito longo e íngreme, com muitas dores-feitas-pedra. 
Sabes, cresci, cresci todos os dias e devagarinho... 
Aprendi que o maior segredo está guardado dentro de nós, mas que ninguém o revela. E que faz todo o sentido não se revelar, porque se trata de algo profundamente antagônico, desafiante - que só pode nascer de um estudo teimoso e de um estado de quase perpétuo por à prova o que somos.  
Já não temos medo de morrer, afinal já morremos tantas vezes e nascemos tantas outras, até aprendermos a olhar para dentro de nós e a ver. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Não sei se me cantas ou se me falas...



"Eu sei que sabes quem eu sou (...)
 Serei o filho de outra vida (...)
Nasci na ponte das promessas (...)"

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Bicho Papão


O medo é um Bicho Papão que ataca em qualquer idade,
Não olha para o coração, nem para a ausência de maldade,
O medo é um Bicho Papão que devora a alma sem piedade.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Do Coração e das Estrelas


Meu Pai do Céu, 
Pai dos mimos infinitos e da proteção sincera,
Cuida das estrelas pequeninas,
As que amei e amo neste caminho tão só.

Meu Pai do Céu,
Ouve a minha prece,
Fazei saber a todas elas o teu Amor Infinito,
Dos abraços de condão em pó de meiguice.

Meu Pai do Céu,
Pega ao colo a todas elas,
E dai-lhes a mão,
Agora e sempre,

Ámen.

sábado, 3 de agosto de 2013

A bem


Abençoada seja esta Maresia eterna,
Abençoada seja esta Música serena,
Abençoada seja este Abraço sem espaço,
Abençoado seja o Viver,
Abençoado seja o Amor,
Abençoado seja o Querer,
Abençoada seja a Vida em pleno Viver.

sábado, 27 de julho de 2013


Tu tens um medo: 

Acabar. 
Não vês que acabas todo o dia. 
Que morres no amor. 
Na tristeza. 
Na dúvida. 
No desejo. 
Que te renovas todo o dia. 
No amor. 
Na tristeza. 
Na dúvida. 
No desejo. 
Que és sempre outro. 
Que és sempre o mesmo. 
Que morrerás por idades imensas. 
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Cecília Meireles

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Acreditar

Maureen Bisilliat

Ela acreditava em anjos.
E porque acreditava, eles existiam.

Clarice Lispector

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Porto de Abrigo

Reaprender


....Constança e a Fonte dos Desejos...

Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos. 
E conhecem o abismo pedra a pedra, anémona a anémona, flor a flor.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Para o Porto

Blue Day (2012) - Brian Cameron

Se a meta principal de um capitão fosse preservar seu barco, ele o conservaria no porto para sempre.    

São Tomás de Aquino

sábado, 6 de julho de 2013

Destruir

Ben Heine - "Fight for your rights"

E tenho em mim a capacidade de destruir tudo.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Fita Vermelha


Estou cansada, 
Mas mesmo assim a minha teimosia é mais forte,
Não vou digo eu,
Não serei mais e novamente cálice.
Cansei de tanto dar de beber.
Cansei do uso gasto e furtivo.
Não quero mais ser isto ou aquilo.
Quero o respeito puro,
O Amor prometido na terra prometida.
Estou cansada, 
E não quero.

sábado, 22 de junho de 2013

Faz de conta...

Corro o risco das eternas letras repetidas, dos círculos infinitamente em Si.
Se ao menos encontrar-me fosse só e apenas estar aqui.
E o céu? Que a terra nunca me chega... e eu sem nunca chegar a mim...
E bate a incessante pergunta: Quem és? Que fazes por aqui?
Ignoro o desenho trajado de pouca infância.
Faz de conta...que não estava Lá.

(2011)

Ao Amor

Meditação sobre a Harpa (1934) - Salvador Dalí

Há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons; 
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons; 
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; 
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.

Bertolt Brecht, "Os que lutam"

terça-feira, 18 de junho de 2013

Redoma


Clarificada a ideia e consolidada a existência desta redoma que protege o espaço vital, pouco resta ao território da inconsciência.   
Pensar dentro do próprio e saber-me guerreira de mim mesma e mesmo assim abrigo de outros acresce-me a responsabilidade de muitas vidas e finalmente da minha.
Ver da mesma forma como sou vista - finalmente o espelho transpõe a verdade - a ausência de máscaras.
Os outros já me sabiam há muito...eles é que me esperavam, da mesma forma como eu agora aprendo a esperar por quem me acompanha os passos.
A vida também é uma bolha.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Chave-Mestra

O Libertador (1947) - René Magritte

Se o meu corpo é vazio,
É porque existe nele a possibilidade de conter.
Conter todos os metais, Ser terra, Ser sal.
Dobrar o ferro, Manobrar o vento fogo,
Trabalhar a água vital.

(2011)

domingo, 2 de junho de 2013

Pés, Mãos e Água...

Elegant ladies at rest - Louis Emile Adan

...a humildade do coração pode ser apenas pés descalços num laço dado de mãos e amor a ordenar as ondas mansas do mar...

(2011)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Quem?

All Alone (2000) - Iman Maleki

Quem?
Quem de mim a borbulhar? 
Quanto caminho, espaço em branco... 
Mero desconhecido desbravar... 
Porque insistes comigo? 
Esquece-te de mim! 
Eu que não vergo a realidade que construo,
Eu que não acredito naquilo que crio, 
Vaga inerte, 
Pousio de espanto e espasmo de acreditar. 

(2011)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Sonho tardio

Dánae (1907/1908) - Gustav Klimt

Tudo me parece um sonho tardio,
Tudo quanto havia sonhado aconteceu.
Todo este meu querer foi partida,
Quando toda a partida chegou,
E do dia a noite anoiteceu.
Rasgada a minha alma, por amor se deu.
Mais tarde recuperada em vaso de barro fino,
Caixa de Pó que sofreu assustada,
E por amor se deu.

(2011)