sexta-feira, 31 de maio de 2013

Quem?

All Alone (2000) - Iman Maleki

Quem?
Quem de mim a borbulhar? 
Quanto caminho, espaço em branco... 
Mero desconhecido desbravar... 
Porque insistes comigo? 
Esquece-te de mim! 
Eu que não vergo a realidade que construo,
Eu que não acredito naquilo que crio, 
Vaga inerte, 
Pousio de espanto e espasmo de acreditar. 

(2011)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Sonho tardio

Dánae (1907/1908) - Gustav Klimt

Tudo me parece um sonho tardio,
Tudo quanto havia sonhado aconteceu.
Todo este meu querer foi partida,
Quando toda a partida chegou,
E do dia a noite anoiteceu.
Rasgada a minha alma, por amor se deu.
Mais tarde recuperada em vaso de barro fino,
Caixa de Pó que sofreu assustada,
E por amor se deu.

(2011)

terça-feira, 28 de maio de 2013

E...

O Grito (1893) - Edvard Munch

E...
E depois há o coração...
E o coração sente.
E há o lugar que habita,
E há momentos sem casa para estar...
E há forças de nunca deixar cair, esvaziar.
E pode ser sempre diferente.
E há luz e traços de franca gente...

(2011)

domingo, 26 de maio de 2013

Missão

Madona Litta (1490) - Leonardo Da Vinci

Criança guarida de luz de linho,
Que transportas em ti o sonho pequenino,
Que de amor e de bruma te fez a história,
Num bem querer de amor sem fim...
Sagrou-te a vontade e ali ficou perto de ti.

Deixa agora mãe serena, ver a luz do menino
Que grande será o seu destino,
Será assim devagarinho, 
Cresce-lhe o dom divino...

Abraço apertado de carinho,
Abre as asas mãe,
Deixa voar um pouco o menino...
Sente em ti o querer maior,
Nele não há lá espaço de dor.

Instante primor em que serenas são as horas,
Sente a sede do menino, que se fez ao mar sozinho, 
E lá batalha com amor.

(2008)

sábado, 25 de maio de 2013

Tempos de Asas

Agonia no Horto (2002) - Paula Rego

Os amigos são como as gaivotas, partem-me em busca dos sonhos... 
Pequena de mim... 
Neste contemplar de vidas com tantas saudades-marinheiras.

(2011)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Quieta e sentada

Maternidade (1935) - Almada Negreiros

Quieta e sentada, 
Dentro do valor que sabe ser oiro em silêncio.
Sentia-lhe a ausência do amor duro e falto em braços finos, de saber agarrar a solidão.
E queria dormir e não podia,
E tinha frio mas não pedia.
Enrolou-se de pés e aos pés e mão em corpo até.
Ninguém abrigava.
Partilhei com ela o manto do Amor,
Puxou com todo o grito da falta – tapou.
E demorou o tempo para a mãe acordar,
E retirar o meu manto e com o seu Amor amar.

(2012)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Ponto prisma de partilha

Galateia de Esferas (1952) - Salvador Dalí

As letras são sempre repetidas,
Incansavelmente repetidas,
Mas, é no seu movimento cíclico,
Que em si se renovam.

A busca do centro causa um turbilhão,
Um remoinho.

É como estar no meio da busca,
É caminhar de dentro para fora,
E à medida que se vai andando,
Tomar uma nova consciência - a da unidade.

Mesmo que não se aceite a visão,
Sente-se a estranheza,
De também se ser Alma contínua,
Num mundo em si finito.

É uma renovação de saberes,
As vezes, apenas a sua recuperação.

(2009)

domingo, 19 de maio de 2013

O Modelo Vermelho - René Magritte

Descalçou-me a alma com o olhar de quem desata as linhas de um coração, 
Mas nele apenas havia pés cansados de um caminho oco de pedras.
Cada buraco, cada dedo do pé - empobrecido e gasto pela dor dos passos.
Vigília de son(h)os em pé...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Peça

A Família - Gustav Klimt

" O meu samba é de vida e não de morte."

Não temos início e não temos fim: as minhas mãos, o peito teu, o coração nosso , a mente feita uni multiplicidade.
Fusão.
Simplicidade, troca em auto-gestão com vontade própria.
O teu riso no meu, a tua voz nos meus ouvidos, os meus olhos nas tuas escolhas.
Meu corpo no teu corpo.
Tanto que fica...tanto que vai...
Consciente.
Sei-te por dentro, sei-te os saberes e os sabores, os feitos - os traços.
Não existe linha de água.
Há apenas toda esta partilha de propriedades - sabendo-me, sabendo-te.
Amostras de "personas" - tantas que a peneira filtra o que fica e baixa todo o sentir de ser ausência de mim e a presença de todos os que me constroem e passam.
Peça invisível de um puzzle universal.
Pela frente a tua paz.
Talvez tu saibas como descalçar o sentir...eu não.

(2010)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Sob o Céu

Caminho de ciprestes sob o céu estrelado - Van Gogh

Terra chão, barro, areia e só-li-dó,
Ventre em desalinho - canção de um barco só.
Estendal de maresia - moinho em pé.
Quebra a dor e o lamento - reza por nós.

sábado, 11 de maio de 2013

Caminho


(...) Melhor do que não saber para onde ir, seja talvez saber para onde não se quer ir.
Tenho a sensação de que vivemos em círculos e que os círculos se repetem, damos por nós a percorrer os mesmos caminhos.
Os mesmos atos vezes sem conta - só mudam as pessoas que nos acompanham e às vezes nem mesmo essas.
Quebrar círculos será portanto começar a viver com consciência individual para além da colectiva - imposta e manipuladora que suga a muitos.
Acredito que no fundo, todos temos medo das respostas.
Mas a procura é o destino de alguns.
Talvez este seja o meu caminho.

(2012)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Pedra


E mesmo que não saiba como escrever-te, 
Passeio-te todos os dias nas pontas dos meus dedos.
E mesmo que não saiba encontrar-te,
Avizinho-te em cada manhã escondida debaixo da pedra.

(2009)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Infinito


Na tua pena amor,
Lagos ardem em chamas,
Vozes gritam num só soluço,
E a agonia perfura-te o mastro.
Gritos do infinito.

(2009)

terça-feira, 7 de maio de 2013

Com Magritte: no meio de tanta gente!

Golconda - René Magritte (1953)

"Há aqui uma multidão de homens, homens diferentes. Quando pensamos numa multidão, contudo, não pensamos num indivíduo, do mesmo modo, estes homens estão vestidos de igual, tão simplesmente quanto possível, para sugerirem uma multidão... Golconda foi uma rica cidade da Índia, uma maravilha. Acho uma maravilha poder caminhar pelo céu na terra. Por outro lado o chapéu de coco não constitui surpresa - é um artigo de complemento, nada original. O homem de chapéu de coco é o Sr. Normal, no seu anonimato. Eu também uso um: não tenho vontade de me destacar das massas." - René Magritte

Crescer

Decalcomania - René Magritte

Manhã sem prazos nem fronteiras...
Apenas esta letra miudinha que me acompanha.
Manhã sem prazos nem fronteiras...
Apenas um ditado cego que alguém me dita:
Que não importa o tamanho das frases, nem até mesmo o sentido das palavras, 
Só importa esta manhã e a sua total ausência de mágoas.
Que não vale pensar muito no escrever, 
Antes deixar correr, 
Como os passos da criança e ver nascer todo o resto com temperança.
Não vale pensar se o certo vai dar certo ou que o incerto certo está.
Não vale.
Não vale crer que apenas a vida compensa o que a vida dá.
Não vale.
Certos por dentro estamos que nunca por dentro sabemos como esta vida se dá e no entanto por certo sabemos que assim será.
Não são enigmas, nem charadas,
São antes palavras fora de tempo, as que faço nascer (...)
Não se aprendem as palavras, 
Conduzem-se dentro do Ser e é o Ser que tem de crescer. 

(2009)

sábado, 4 de maio de 2013

Da fome com Klimt


O Beijo - Gustav Klimt

"Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome." - Adélia Prado

Só agora conheço essa fome...
de se fazer existir, sentindo-se Alguém
de ser o mundo cada dia mais pequeno
de criar
de sorrir
de Amar e de ser amado
do corpo a extravasar o que sente

Afinal: fome que exige que a completem, saciando-a...
Felicito quem encontra a outra parte do puzzle, aconselhando que a fome não seja completamente saciada:
ela faz falta, sem ela não há vida!

Abrir a Vida

Mulher na Janela - Salvador Dalí

Podemos estar a ultrapassar muitas dificuldades, tumultos, mas no fundo que caminho seria este sem obstáculos?
Seria coisa estranha e indeferida - não seria ardósia nem giz - não faria de nossos passos uma escrita.
Facto é que precisamos escrever sobre os nossos passos. Afinal, eles são a soma de todos os nossos pensamentos, coágulos internos e de vida que encaramos com esforço e coragem....mesmo que por vezes incoerentes, (os passos são-nos) falíveis ou falsos, mas são.
Quem nunca se enganou no caminho? (...) mudou o compasso anteriomente definido, arriscou um novo ritmo, mesmo sabendo-se perdido?  
Quem já no meio do caminho se perdeu e se encontrou desfeito, mas mesmo assim prosseguiu?
Culpe-se a força, o querer interno, a vontade do sem fim, o acreditar no bem, o querer a vida, o aceitar o amor incondicional, o pecado, a morte amiga, a loucura, o desespero, o acordar, o sentir-se uno, o renascer em força bruta!
Culpe-se tudo isto que é ser! 
Tudo o que nos conduz à celebração da vida, num olhar mais leve para o mundo e para a nossa natureza - com virtudes e falhas, mas sobretudo com amor e só por isto vale a pena vive-la!

(2009)   

Beleza Rara - Ivete Sangalo

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Maria Rita - Casa Pré-Fabricada

A chama

Ilustração: "Mamã" por T. C. Alves (2008)

Aguardo a chegada,
Fruto de Ser,
Faísca,
Labareda,
Cor de Fogo ateada;
Possa não saber um dia, 
E ver crescer a chama,
 Cor de Fogo e Alada.

(2009)