sábado, 30 de novembro de 2013

Mater


Obrigada Mater, pela Visão.
Há muito tempo que o meu coração sangra.
Os Homens, Mater e As mulheres, Mater já não podem mentir.
Há muito tempo que o meu pensamento redobra como o teu,
Das horas em que sentias que se tudo fosse em pensamento não haveria mentira no mundo e tudo seria mais justo, melhor e o Amor seria a lei e o percurso natural das coisas.
Tanta dor por perceber que muitas vezes o toque não é suficiente.
Que bem-me-quer
Que mal-me-quis 
E eu só te quero ver feliz.
Há muito tempo.
Agape Mater

sábado, 23 de novembro de 2013

Ó Constança: "É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir!"

"Forbidden Paradise" by Tenebra

«Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.»


A distância entre as duas margens não era grande e João Sem medo morria de fome. Não hesitou, pois. Despiu-se e com a trouxa de roupa à cabeça penetrou no líquido esverdeado de limos, crente de que alcançaria facilmente a nado o laranjal apetecido. Mas aconteceu então este fenómeno incrível: à medida que o nadador se aproximava da outra margem, a água aumentava de volume e a lagoa dilatava-se. Por mais esforços que despendesse para fincar as mãos na orla do lago, só encontrava água, água unicamente. A terra afastava-se.


- Bonito! Estou dentro dum lago elástico – descobriu João Sem Medo, esbaforido. Mas fiel ao seu sistema de persistência enérgica não renunciava ao combate. As margens desviavam-se, mas o rapaz nadava, nadava sempre, com confiança plena nos seus braços, na força de vontade e no desejo de vencer.



- Eh!, alma do diabo, sofre! – instigou-o por fim uma onda a deitar os bofes de espuma pela boca fora. Um peixe insurgiu-se com voz mole:



- Assim não vale! Vê se acabas com isso. Eu e os meus camaradas peixes queremos dormir em sossego. Vamos, chora! Uma gaivota baixava de vez em quando para lhe insinuar, baixinho:

-Então? Torna-te infeliz. Soluça. Berra. Chora. Lembra-te que seguiste o Caminho da Infelicidade. Não faças essa cara de quem ganhou a sorte grande. Por último, uma coruja de mitra pequenina na cabeça e venda nos olhos – para voar de dia e de noite em perpétua escuridão – segredou-lhe ao ouvido:

- Queres laranjinhas? Ouve a minha sugestão: representa a comédia da dor. Finge que sofres muito, sê hipócrita. Mente. Pede a esmolinha de uma laranja por amor de Deus. Vá! Não sejas tolo. Chora.

Como única resposta, João Sem Medo repeliu a coruja, fez das tripas coração e desatou a cantar à sobreposse. Então, ao som do seu canto, por fora tão vibrante e viril, a fúria das águas amainou. O rugir das ondas amorteceu lentamente. Um murmúrio de desistência soprou pela superfície do lago. E João Sem Medo, com algumas braçadas vigorosas e seguras, logrou pôr o pé em terra perto do laranjal carregado de pomos de ouro.

Claro, correu logo como um doido para a árvore mais próxima, sôfrego de engolir meia dúzia de laranjas. Mas, num lance espectacular, os frutos diminuíram rapidamente de volume até atingirem o tamanho de berlindes e– zás! – com um estoiro despedaçaram-se no ar. Humilhado, e a contar com uma nova surpresa desagradável, abeirou-se de outra laranjeira. Desta vez, porém, as laranjas transformaram-se em cabeças de bonecas doiradas e deitaram-lhe a língua de fora.

- A partida anterior teve mais graça! – observou João Sem Medo. E dirigiu-se para uma tangerineira com a vaga esperança de apanhar uma tangerina desatenta. Isso sim. Mal o avistaram, os frutos caíram dos ramos como bolas de borracha e espalharam-se na paisagem. Então, numa tentativa suprema, João Sem Medo acercou-se de outra árvore, sorrateiramente, em bicos de pés. Tudo inútil. Como se estivessem combinadas, as laranjas e as tangerinas do pomar desprenderam-se dos troncos, abriram pequeninas asas azuis e começaram a subir serenamente no céu.

Apesar da fome, João Sem Medo, com os olhos fixos no espectáculo maravilhoso das bolas de ouro a voarem, não pôde reprimir este clamor de entusiasmo, braços erguidos para o ar:

-Parabéns, Mago. Parabéns e obrigado por este instante, o mais belo e bem vivido da minha vida. Obrigado. Mas agora ouve o que te peço: desiste de me perseguir. Convence-te de que, para mim, a felicidade consiste em resistir com teimosia a todas as infelicidades. E vai maçar outro. Ouviste? Vai maçar outro.»

José Gomes Ferreira in Aventuras de João Sem Medo

Bendita Musica - Dulce Pontes


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Home


please just take me home

Mostra-me, peço-te.


Ah, a imagem não é exata, eu sei...mas não encontro nada mais semelhante a esses teus bonecos de madeira que tens simetricamente alinhados numa fila de quem parece que vai partir para a farra. Gosto deles, fazem-me lembrar aqueles cabeçudos das folias mas em ponto pequeno, se bem que as pernas até que são altas e fininhas... Gosto das cores, gosto muito, só não entendo é se são sacolas o que alguns trazem ao peito.
Mas olha, nada disto importa, foi só um reparo esguio...
O que importa é agradecer.
 Obrigada pelas conversas em alma e de alma, nessa dimensão onde poucos se sabem encontrar, sentar e falar. 
Obrigada por esse abraço feito em fanicos de perdão e muito amor até.
Quero-te dizer que o lugar dos sonhos será sempre moradia de esperas, desabafos, o descompartilhar e descompartimentar de corações. E que ali são rendidos os medos e os cansaços, os risos até.
Sinto a tua falta, sinto sempre.
E perdoa se tudo isto é ilusão.
Mas em humildade de coração, feita também em tábuas de madeira como essa casa árvore - onde todos brincam - faz-me pelo menos uma vez a vontade e mostra-me que não me sentei só, que estavas lá comigo e que tudo isto é verdade.
Mostra-me, peço-te.

Elis Regina - Aos Nossos Filhos


"Perdoem por tantos perigos,
Perdoem a falta de abrigo,
Os dias eram assim..."

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Muita chuva nessa hora


 Sempre a chuva, sempre as pessoas a caírem como gotas pesadas dos céus.
Sempre as histórias, as fugas impensadas, os maestros de uma vida a morrer.
Sempre pergunto porque foges em mar, tu que nasceste rodeada de água?
Não vês que o santo vocabulário e o coração são os mesmos?
De que adianta fujir à sorte que só demora no tempo a chegar?
Guia-te Porto

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Empanamentos de alma


Eu digo-lhe que tenho o coração empanado e que nem consigo escrever...ela diz-me que tenho o coração cheio de pão e sementes...eu digo-lhe que já não tenho terra para tantos sentimentos... ela diz-me que posso plantar lá o que eu quiser...eu digo-lhe que não existe ninguém para tratar...ela diz-me que é preciso água para fazer crescer...eu digo-lhe que não tenho a água que faz sonhar...ela diz-me que vem com o tempo, nem que tenha de esperar...eu digo-lhe que já não tenho sementes...ela diz-me que as sementes são sonhos e que às vezes são vontades escondidas...eu digo-lhe que matei as vontades, que o horizonte esta vazio...ela diz-me que vejo o céu e que se vejo o céu também vejo o mar e se vejo o céu e o mar também vejo o sol, por isso também vejo o horizonte...e eu? eu lembro-me de Pessoa e calo-me...mas a conversa sempre continua...    

Eu Não Sei Quem Te Perdeu

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Que sufocooooo!

Anda, Vem


Mãe, anda, vem...
E senta-te aqui ao meu lado e explica-me as pessoas e os seus sentimentos que eu não consigo entender.
Mãe, anda, vem...
E explica-me como é que é possível um coração humano sentir tanta coisa que o transcende a alturas e funduras de alma que se pensavam ser impossíveis.
Oh Mãe, anda, vem...
Que me sinto tão pequenina cá dentro.
Minha Mãe,
Minha Mãe de Alma.