terça-feira, 26 de agosto de 2014

O canto


Minha mãe, foi me concedida toda a liberdade da escrita,
Do poema em flor de canto,
Da flor a abrir.
Minha mãe que já não vives ao relento do teu próprio amor.
Esta escrito na sina do destino de um outro Senhor,
Que não mais será teu o pranto e a dor.
Bendita sejas entre as mulheres,
Bendito seja o rumo dos teus pés,
Bendita seja a coragem do teu coração.
Para agora e para todo o sempre,
Ámen.

sábado, 5 de abril de 2014

Ó cruel poço vicioso: é a Hora!


Recomeça…
Se puderes,

Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo

Ilusões sucessivas no pomar

E vendo

Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


Miguel Torga, Diário XIII, "Sísifo"

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Gume


Pelo gume se afia a faca,
E eu começo a afiar-me contigo.
Queira Deus decidir o teu destino.
Que seja sangue cravado em espinho,
Ou alvo destino.
Que me livre a morte do agoiro,
Da dor que hoje sinto.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Salto


Mater, preciso da força dos pescadores,
Daqueles que sabem trazer as traineiras em flor.
Dos sábios dos mares, cogitar com as marés.

Mater, preciso do pulsar das águas mais profundas,
De levitar ante teus pés.

Erguer-me, ao alto e bramir o vento fundo,
O fogo que cega e arde,
Num remoinho, feito estandarte.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Discórdias


Inexplicavelmente, vivo e amo um mundo onde não me enquadro...
É como se as gaivotas e o mar estivessem dentro de mim mas demasiado longe para lhes tocar e sentir.
É uma adequação desadequada onde sei que a minha presença é útil mas fico com a sensação que nem deveria ter passado por aqui...
Sinto-me desconexa porque vejo-me em mil pedacinhos mas não encontro a unidade-mãe, como se o que sou fosse escrito no vento.
Afinal, tudo é uma certa imcompletude de ser não sendo, estar não estando e viver não existindo.
Cadê a cola-forte?

domingo, 12 de janeiro de 2014

Avesso



"Como num poema do Eugénio, já não há nada que nos peça água. E estamos como ela: insípidos, inodoros e incolores. Leves. Capazes de ir do tudo ou nada sem efusão de sangue. Deve andar a escapar-nos o momento em que deixamos de olhar a vida nos olhos e a desregrada infinidade de coisas que vinha junto com ela".

Miguel Carvalho 

Do porto... constante abrigo!


"Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço!" - Ferreira Gullar

domingo, 5 de janeiro de 2014

Infante


O corpo já grita em desvario,
Da falta que nos faz o que é vital, oh Mãe!
E eu já quebrei o sagrado templo do corpo,
Matei a linha de água e todo o sopro divino,
Quem me guardou as dores lado-a-lado,
Foi minha doce Irmã e toda uma Lua esquecida e por transmutar,
Hoje minha Mãe, envolve meu corpo no teu sangue,
E deixa-me dormir nesse teu mar de bruma.